O dia está nublado.
Olho pela janela do consultório e vejo os barcos de pesca em seu percurso, tranquilos deslizando no rio. Sem deixar de ver, escuto o barulho dos carros passando lá em baixo. Freios, buzinas e motores jogando poluição no ar. Automóveis desviando dos andantes.
Sinto a textura da poltrona, enquanto olho a outra poltrona vazia. São de cores diferentes, de texturas diferentes. E assim vou escrevendo. Entre uma frase e outra olho o consultório silencioso, em silêncio. Arrumo os lenços de papéis sobre a mesa de centro. O vidro está limpo.
Percebo minha respiração. Hoje está tranquila. Mas a boca está seca. Pego meu copo e completo com água gelada. Vou até o banheiro e lavo o rosto.
Em pé, olho todo o consultório. Como um lugar amplo pode exercer um poder grande na vida das pessoas?
Pessoas.
E agora percebo que comecei e passei grande parte desta anotação falando de objetos. Barcos, carros, poltronas. Nada disto existiria se não fossem pessoas. Os pescadores levam o barco de pesca; motoristas em seus carros; o psicólogo em sua poltrona; o consultório esperando pessoas.
Pessoas em suas lágrimas e sorrisos. Verdades e mentiras. Razão e emoção. Pessoas buscando equilíbrio. Pessoas querendo crescer.
Agora são quase quatro horas da tarde.
O dia continua nublado.
Ainda de pé, abro a porta e a chamo pelo nome.
Começa mais um atendimento...
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